Nas cidades antigas do interior de Minas Gerais, onde as igrejas centenárias se erguem sobre montanhas de pedra e o silêncio da noite é quebrado apenas pelo vento nas árvores, corre uma das mais temidas lendas do folclore mineiro: a Mula-sem-Cabeça.
Dizem que, há muito tempo, em uma vila próxima a Ouro Preto, vivia uma jovem bela e devota, filha de uma família tradicional. Criada entre orações e novenas, frequentava a igreja todos os domingos. Mas seu coração guardava um segredo proibido: ela se apaixonou por um padre da paróquia local.
O amor entre os dois cresceu em silêncio e pecado. O povo começou a desconfiar, e os sussurros corriam pelas janelas fechadas. Quando finalmente a relação veio à tona, a jovem foi amaldiçoada. Conforme a crença antiga, toda mulher que se envolvesse com um sacerdote seria punida com a pior das maldições: transformada em uma criatura monstruosa.
Numa noite de sexta-feira, durante a missa de vigília, enquanto relâmpagos cortavam o céu e os sinos tocavam sozinhos, a maldição se cumpriu. A moça desapareceu no meio da escuridão. Alguns dias depois, relatos começaram a surgir.
Nas madrugadas de lua cheia, os moradores ouviam o galopar furioso de um animal invisível pelas ruas de paralelepípedos. Era uma mula de fogo, sem cabeça, de onde jorravam labaredas no lugar do pescoço. Seus cascos faziam faíscas ao tocar o chão e, por onde passava, os cães latiam desesperados, as lamparinas tremeluziam e as janelas se fechavam com estrondo.
A Mula-sem-Cabeça corria em círculos pelas igrejas, urrava ao redor das casas dos padres e desaparecia na mata, deixando um rastro de cinzas e medo.
Alguns afirmam que, em noites de tempestade, ela ainda percorre as estradas de terra batida entre Mariana, Sabará e São João del-Rei. Outros juram ter visto a silhueta flamejante da mula cruzando as pontes antigas, sempre sozinha, condenada ao castigo eterno por ter amado quem não podia.
E até hoje, nas noites mais escuras, as senhoras mineiras aconselham suas filhas:
— Nunca desafie as leis do sagrado, minha filha… ou poderá ouvir o galope da Mula-sem-Cabeça no meio da noite.